As encomendas internacionais de até US$ 50 cresceram 82% em setembro na comparação com o mesmo mês de 2025, segundo relatório do BTG Pactual baseado em dados da Receita Federal, repercutido pela Mercado&Consumo nesta sexta-feira (16). Foram cerca de 25,2 milhões de pacotes no mês, que somaram R$ 2,37 bilhões em valor importado — alta de 87% sobre setembro do ano passado.
O salto tem explicação tributária. O Imposto de Importação federal de 20% sobre compras de até US$ 50 — apelidado de “taxa das blusinhas” e cobrado desde agosto de 2024 no programa Remessa Conforme — foi zerado em 12 de maio de 2026 pela Medida Provisória 1.357. O texto passou pelo Congresso e virou a Lei 15.502, sancionada em 10 de setembro. O ICMS estadual, porém, segue incidindo sobre essas remessas, com alíquotas entre 17% e 20%, conforme o Estado.
Não foi só um pico
Para medir o efeito sem a distorção do mês da mudança, o banco compara setembro com abril, último mês cheio ainda com o imposto federal: no período, o número de encomendas subiu 61% e o valor importado, 62%. Na leitura dos analistas, a demanda acelerou em junho e se manteve em patamar alto por quatro meses seguidos, sem devolver o ganho — sinal de que a redução de imposto sustentou uma retomada duradoura do cross-border.
O relatório mensal do Remessa Conforme, publicado pela Receita, confirma a escala: em setembro o programa registrou 25,2 milhões de declarações de importação, o equivalente a 98% de todas as declarações de remessas do mês, com valor aduaneiro de cerca de R$ 2,37 bilhões.
Por que isso importa na 25 de Março
O BTG aponta a moda e outras categorias de compra por impulso como as mais expostas. Segundo o banco, a diferença de preço da Shein em relação à cesta média das varejistas brasileiras listadas em Bolsa subiu para 44% em agosto, ante 34% em junho. Shopee e AliExpress completam a lista de plataformas que disputam o mesmo cliente.
É exatamente o território do comércio popular do Centro: bijuteria, acessórios de moda, capinhas e cabos de celular, cosméticos, utilidades e artigos de festa. Na reta de Black Friday e Natal, o lojista que vende no balcão e no WhatsApp tem algumas cartas que o pacote importado não tem:
- Pronta-entrega: o cliente leva hoje, sem esperar semanas nem correr risco de atraso às vésperas das festas.
- Preço final na etiqueta: comparar com o valor do site estrangeiro já somando ICMS e frete, e não com o preço “de vitrine” do aplicativo.
- Troca e garantia no balcão, argumento forte para presente e eletrônico.
- Atacado e variedade para revendedores, que compram em volume e precisam de giro rápido.
O próprio banco avalia que o varejo nacional chega mais preparado a esta disputa do que em ciclos anteriores, com logística mais rápida e presença digital maior. A pressão, porém, é real: como mostrou o 25 de Março Já, pesquisa da CNDL/SPC indica que comprar em sites estrangeiros já virou hábito mensal para 41% dos consumidores digitais.
Com informações de Mercado&Consumo (16/10/2026), relatório BTG Pactual e Receita Federal (Relatório de Resultados do Programa Remessa Conforme, setembro de 2026).