O Dia das Crianças, na segunda-feira (12), chega à Rua 25 de Março com um clima misto. Brinquedos, roupas e calçados infantis ficaram mais baratos nos últimos 12 meses, mas lojistas e economistas ouvidos pela imprensa nesta sexta-feira (10) apontam que preço menor sozinho não deve aquecer o movimento no maior polo de comércio popular de São Paulo.
Segundo o IPC da FGV, nos 12 meses encerrados em setembro os brinquedos e artigos esportivos recuaram 0,89%, enquanto a inflação geral ficou em 3,94%. Roupas infantis caíram 0,40% e calçados infantis, 3,21%. Bicicletas e bonecas também ficaram mais acessíveis. Para o economista André Braz, do FGV Ibre, os presentes tradicionais tiveram variação favorável ao consumidor — o que, na prática da 25 de Março, ainda esbarra no bolso apertado de quem vem comprar no atacado e no varejo.
Endividamento e tíquete menor
O economista Ulisses Ruiz de Gamboa, da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), resume o dilema: pode estar mais barato, mas falta renda disponível. A Peic da CNC mostrou o comprometimento médio da renda das famílias com dívidas em 29,6% em setembro, ante 29,3% em agosto. Com juros altos, a prioridade vira o essencial — e sobra pouco para presente.
Marcelo Mouawad, diretor da Univinco (União dos Lojistas da Rua 25 de Março e Adjacências) e da ALBB (Associação dos Lojistas de Brinquedos do Brasil), vê o endividamento reduzindo o tíquete médio: quem pensava em um brinquedo de R$ 100 leva um de R$ 60. Para ele, pesa ainda mais a perda de relevância da data, a disputa com passeios, parques de shopping e restaurantes com área kids, e a comparação imediata com o e-commerce, onde o preço de um item isolado costuma ser menor.
Mouawad lembra que a loja física ainda ganha na variedade e no atendimento de quem não sabe o que comprar. Também cobra equidade tributária diante de importações diretas: um item que sai por cerca de US$ 1 na China pode chegar perto de R$ 40 ao consumidor brasileiro depois de impostos, frete e distribuição, enquanto compras internacionais sem a mesma carga tributária chegam bem mais baratas — pressão direta sobre a indústria e o varejo nacional que abastecem a 25 de Março.
Na rua, relatos de fraco e de alta
No chão da região, o termômetro não é único. Edson Lima, 53, gerente de uma loja de artigos para festas infantis, diz que o movimento está bem abaixo de anos anteriores e cita o peso de tributos e aluguéis, com várias lojas fechando no entorno. Um ambulante de armas de bolhas de sabão, que não quis se identificar, falou em ano fraco e em crianças mais interessadas em eletrônicos do que em brinquedos tradicionais.
João Cavalcante, gerente de loja nas adjacências da 25 de Março, conta que o foco da empresa nesta época já migrou para o Natal e o Halloween. Na visão dele, celular, internet e contas de casa empurram o brinquedo para segundo plano: “Ou compra um brinquedo ou paga as contas de casa.”
Há quem vá na contramão. Rita de Cássia, há 19 anos em uma loja de brinquedos da região, afirma que as vendas cresceram — o proprietário estima alta próxima de 10% em relação ao ano passado. O empurrão vem de produtos originais de marcas conhecidas e, sobretudo, de cartas Pokémon, com uma coleção nova neste mês, além de itens ligados ao K-pop e à linha Sylvanian Families.
Rita diz que, depois da pandemia, muitos pais voltaram a presentear com brinquedo físico, preocupados com o excesso de tela, e que adultos colecionadores também sustentam a procura por originais. O empresário Júlio Ventura, ouvido na rua, foi comprar cartas para si e para revender: na conta dele, quem aquece esse nicho é a geração de 25 a 35 anos ou mais, que cresceu com o desenho e hoje tem renda — enquanto o presente do filho de 11 anos veio em skins de games, passeio e um brinquedo prometido.
O que o lojista da 25 de Março pode fazer até segunda
Com a data em cima, a leitura prática para quem vende na 25 de Março, Barão de Duprat e Senador Queirós é clara: o cliente compara preço, parcela menos e escolhe com cuidado. Estoque de ticket médio, variedade presencial, produtos originais bem expostos e combos que facilitem a decisão ainda fazem diferença — sobretudo quando o online ganha no item isolado, mas perde na experiência de escolher na hora.
Esta nota reúne a reportagem de rua e as entrevistas publicadas pela Folha de S.Paulo e republicadas via Folhapress no ES Hoje nesta sexta-feira (10), às vésperas do Dia das Crianças.