Uma linha de sandálias da Havaianas inspirada no bordado Boa Noite, técnica tradicional da Ilha do Ferro, povoado de Pão de Açúcar, no Sertão de Alagoas, virou alvo de críticas da própria comunidade que mantém a tradição viva.
Na sexta-feira (30), a Associação de Moradores da Ilha do Ferro e a Cooperativa de Bordadeiras Art-Ilha divulgaram uma nota pública afirmando que nenhuma bordadeira, morador ou representante da associação foi consultado, comunicado ou autorizado durante o desenvolvimento da coleção. As entidades também dizem que a estampa impressa nas sandálias não reproduz a técnica nem a identidade do bordado feito à mão.
“Usar o nome da nossa terra e da nossa arte sem nos ouvir de verdade não é uma homenagem justa ao nosso povo; é apropriação do que pertence a nós”, diz um trecho da nota. Ainda assim, a comunidade afirma estar aberta ao diálogo com a empresa para mostrar o trabalho original e entender como foi o processo.

O que diz o produto
No site oficial da marca, o modelo aparece por R$ 94,99, com a descrição: “Inspirado no bordado Boa Noite da Ilha do Ferro, em Alagoas, transmitido de geração em geração”. Até a publicação das reportagens consultadas, a assessoria da Havaianas não havia respondido às críticas.
O produtor de moda e estilista alagoano Anísio Lima saiu em defesa das artesãs nas redes sociais. Segundo ele, o Sebrae Alagoas trabalha há anos na capacitação e valorização dos artesãos do povoado, e inspiração cultural “não deve ser uma via de mão única”: quem produz precisa ser reconhecido, envolvido e remunerado.
Uma técnica que é fonte de renda
O Boa Noite é feito a partir do desfiamento e da recomposição do tecido, formando desenhos geométricos e florais. O conhecimento passa de geração em geração entre as mulheres da comunidade e é, ao mesmo tempo, expressão cultural e fonte de renda. A Ilha do Ferro, às margens do Rio São Francisco e a cerca de 235 quilômetros de Maceió, tem pouco mais de 450 moradores e é conhecida pela concentração de artistas populares, com peças em madeira da caatinga e bordados.
O que o caso ensina a quem vende artesanato e armarinho
Para quem trabalha com bordados, tecidos, aviamentos e artesanato na região da 25 de Março, o episódio mostra que a origem de uma técnica pesa cada vez mais na decisão de compra e na imagem da marca. Usar o nome de uma comunidade ou de uma tradição em embalagens, anúncios e etiquetas sem parceria ou crédito pode virar problema nas redes sociais. Já produtos feitos em parceria com artesãos, com origem informada, tendem a ganhar a simpatia de um consumidor que valoriza o feito à mão.
Com informações do Jornal de Alagoas, do Já é Notícia, do TNH1 e do BNews.




